sábado, 9 de junho de 2012

Lamentação de Ícaro



Sei que ao me aproximar demais do calor
a cera frágil que une as penas de minhas asas vão derreter
Sei que cairei sobre o teto de Poseidon, abrindo assim,
caminho e estadia eterna no alçapão de Hades

Mas mesmo assim,
Como não ser livre?
De que vale ser prudente e voar, quando na verdade
anseio por liberdade maior?

Ainda que eu pague com a vida
ainda que o mar me apare e me desampare para afogar
Mesmo que o voo seja interrompido
minha alma tem asas próprias, viajarei para outro lugar

Bobos são os que verão as minhas asas usurpadas
que lamentarão a minha queda, a minha morte
Há guerreiros menos nobres com sangue nas espadas
que em relação a mim, serão de menos sorte

As asas que me adentram para a história
são de água com sal
são as lágrimas que choro, juntamente
com este mar que me condena

E sim, me chamem de imprudente, irresponsável, desvairado
só não me chamem de covarde

O sol me atrai e eu vou
o calor me chama e eu irei
sentirei a cera por entre as penas
e assim, perderei a força que outrora fora mais forte que a gravidade
Cairei entre as espumas das águas
e a tsunami causada pelo impacto do meu corpo inundará uma cidade

Mas mesmo assim eu subirei
não quero tocar o céu
sei que isto não é possível
não quero apalpar os calcanhares de Apolo
nem abraçar o sol
quero apenas subir, subir...
viver a minha escolha ao máximo dos extremos
e como troféu, sofrer a consequência com a mesma extremidade
e assim, cair, cair, cair... cair

Zombem de mim pois os que nunca sofreram uma queda tão grande
mas lembro aos mesmo que, ao contrário de mim, jamais subirão tão alto.

Bruno Rodrigo Pinheiro Ramos
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil

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